31 agosto 2006

Ali Kamel: Não Somos Racistas

O livro de Ali Kamel, sob o título acima, reune muitas das coisas que ele vem escrevendo no "O Globo" sobre o tema, e estou transcrevendo abaixo um trecho, acompanhado de um comentário de Jerônimo Teixeira sobre "as falácias da política de cotas raciais". Estes textos já circularam em minha lista, por sugestão de Maria Cristina Barreto.

Segundo Ivonildo Leite, "quanto mais não seja, os dois textos a seguir são interessantes para, no mínimo, tornar a discussão sobre cotas mais plural. Um tanto mais audaciosa talvez seja a pretensão de pautar o debate pela racionalidade, indo além do discurso "politicamente correto", que, por não fazer nenhuma distinção entre ideologia e ciência, cria embaraços para as próprias causas que defende."

Já Luisa Schwartzman discorda: "eu nao acho que os dois textos tornem a discussao mais plural. Pelo contrario, eles a tornam tao plural quanto sempre foi desde que comecou. Ou seja, as pessoas ou sao contra ou a favor das cotas. Só existem esses dois pontos de vista? Ninguém consegue pensar em mais nada? Nao tem meio-termo?

NÃO SOMOS RACISTAS

Ali Kamel

Foi um movimento lento. Surgiu na academia, entre alguns sociólogos na década de 1950 e, aos poucos, foi ganhando corpo até se tornar política oficial de governo. Mergulhado no trabalho jornalístico diário, quando me dei conta do fenômeno levei um susto. Mais uma vez tive a prova de que os grandes estragos começam assim: no início, não se dá atenção, acreditando-se que as convicções em contrário são tão grandes e arraigadas que o mal não progredirá. Quando acordamos, leva-se o susto. Eu levei. E, imagino, muitos brasileiros devem também ter se assustado: quer dizer então que somos um povo racista? Minha reação instintiva foi me rebelar contra isso. Em 2003, publiquei no Globo um artigo cujo título dizia tudo: "Não somos racistas."

Depois dele, publiquei outros tantos e, hoje, vendo-os no conjunto, tenho a consciência de que fui me dando conta do estrago à medida que ia escrevendo. Escrevi sempre na perspectiva de um jornalista, de alguém especializado em ver o imediato das coisas. Outros lutaram em seus campos, sempre com muita propriedade. Gente como os historiadores José Roberto Pinto de Góes, Manolo Florentino, José Murilo de Carvalho e Monica Grin, os antropólogos Yvonne Maggie, Peter Fry e os sociólogos Marcos Chor Maio, Ricardo Ventura e Demétrio Magnoli e o jornalista Luis Nassif, entre tantos outros, tentaram alertar a sociedade brasileira para o perigo nos jornais, em artigos especializados, em seminários e em livros.

Na perspectiva de jornalista, de alguém mais próximo do cidadão comum, espantei-me diante de algumas descobertas. Um exemplo, o conceito de negro. Para mim, para o senso comum, para as pessoas que andam pelas ruas, negro era um sinônimo de preto. Nos primeiros artigos, eu me debatia contra uma leitura equivocada das estatísticas oficiais acreditando nisso. Certo dia, caiu a ficha: para as estatísticas, negros eram todos aqueles que não eram brancos. Cafuzo, mulato, mameluco, caboclo, escurinho, moreno, marrom-bombom? Nada disso, agora ou eram brancos ou eram negros. De repente, nós que éramos orgulhosos da nossa miscigenação, do nosso gradiente tão variado de cores, fomos reduzidos a uma nação de brancos e negros. Pior: uma nação de brancos e negros onde os brancos oprimem os negros. Outro susto: aquele país não era o meu.

O debate em torno de raças no Brasil sempre foi intenso. Deixando de lado todo o debate entre escravocratas e abolicionistas, o século XX foi todo ele permeado por essa discussão. Nas primeiras décadas do século passado, o pensamento majoritário nas ciências sociais era racista. Mas até ele reconhecia que o Brasil era fruto da miscigenação. O racismo era decorrente justamente dessa constatação: para que o país progredisse, diziam os sociólogos, era preciso que se embranquecesse, diminuindo a porção negra de nosso povo. Foi Gilberto Freyre quem mais se destacou em se contrapor a um pensamento tão abjeto como este.
Freyre não foi o autor do conceito de "democracia racial", não foi ele quem cunhou o termo, hoje tão combatido. Aliás, era avesso a tal conceito, porque o que ele via como realidade era a mestiçagem e não o convívio sem conflito entre raças estanques. Usou em discursos a expressão uma ou duas vezes, a partir da década de 1960, mas sempre como sinônimo de um modelo em que a miscigenação prevalece. Jamais edulcorou a escravidão. Casa grande e senzala, a obra-prima de Freyre, dedica páginas e mais páginas ao relato das atrocidades que se fizeram contra os escravos. Está tudo ali, todos os sofrimentos impostos aos escravos: o trabalho desumano nas lavouras, as meninas menores de 14 anos, virgens, violadas na crença de que o estupro curaria a sífilis, as mucamas que tinham os olhos furados e os peitos dilacerados apenas por despertar os ciúmes das senhoras de engenho. Freyre não omite nada; expõe. É claro que também reconhece no branco português uma elasticidade, sem o que não poderia ter havido mistura. É claro que descreve certo congraçamento entre o elemento branco e o negro.

Essas características de Casa grande e Senzala, no entanto, foram tão realçadas com o decorrer do tempo que muitos hoje acreditam, erradamente, que Freyre escondeu os horrores da escravidão para fazer do Brasil mais do que uma democracia racial, um paraíso.

O papel de Freyre, porém, foi outro, muito mais marcante. No debate com o pensamento majoritário de então, o que Freyre fez foi resgatar a importância do negro para a construção de nossa identidade nacional, para a construção da nossa cultura, do nosso jeito de pensar, de agir e de falar. Ele enalteceu a figura do negro, dando a ela sua real dimensão, sua real importância. A nossa miscigenação, concluímos depois de ler Freyre, não é a nossa chaga, mas a nossa principal virtude.

Hoje, quando vejo o Movimento Negro depreciar Gilberto Freyre, detratando-o como a um inimigo, fico tonto. Os ataques só podem ser decorrentes de uma leitura apressada, se é que decorrem mesmo de uma leitura.

Como bem tem mostrado a antropóloga Yvonne Maggie, a visão de Freyre coincidiu com o ideal de nação expresso pelo movimento modernista, que via na nossa mestiçagem a nossa virtude. Num certo sentido, digo eu, a antropofagia cultural só poderia ser mesmo uma prática de uma nação que é em si uma mistura de gentes diversas. Esse ideal de nação saiu-se vitorioso e se consolidou em nosso imaginário. Gostávamos de nos ver assim, miscigenados. Gostávamos de não nos reconhecer como racistas. Como diz Peter Fry, a "democracia racial", longe de ser uma realidade, era um alvo a ser buscado permanentemente. Um ideal, portanto.
Isso jamais implicou deixar de admitir que aqui no Brasil existia o racismo. É evidente que ele existia e existe, porque onde há homens reunidos há também todos os sentimentos, os piores inclusive. Mas a nação não somente não se queria assim como sempre condenou o racismo. Aqui, após a Abolição, nunca houve barreiras institucionais a negros ou a qualquer outra etnia. E para combater as manifestações concretas do racismo - inevitáveis quando se fala de seres humanos - criaram-se leis rigorosas para punir os infratores, sendo a Lei Afonso Arinos apenas a mais famosa delas.

Mas a partir da década de 1950, certa sociologia foi abandonando esse tipo de raciocínio para começar a dividir o Brasil entre brancos e não-brancos, um pulo para chegar aos que hoje dividem o Brasil entre brancos e negros, afirmando que negro é todo aquele que não é branco. Nos trabalhos de Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso, Oracy Nogueira e, mais adiante, Carlos Hasenbalg, se a idéia era "fazer ciência", o resultado sempre foi uma ciência engajada, a favor de negros explorados contra brancos racistas. A idéia que jazia por trás era que a imagem que tínhamos de nós mesmos acabava por ser maléfica, perversa com os negros. Era como se o ideal de nação a que me referi tivesse como objetivo o seu contrário: idealizar uma nação sem racismo para melhor exercer o racismo. O papel da ciência, "para o bem dos negros", seria desmascarar isso, tirando o véu da ideologia e substituindo-a pela realidade do racismo. Esse raciocínio levava, porém, ao paroxismo de permitir a suposição de que um racismo explícito é melhor do que um racismo envergonhado, esquecendo-se de que o primeiro oprime sem pudor, enquanto o segundo, muitas vezes, deixa de oprimir pelo pudor.



AS FALÁCIAS DA POLÍTICA DE COTAS RACIAIS NA ANÁLISE DEMOLIDORA DE ALI KAMEL

Jerônimo Teixeira


No início dos anos 1930, às vésperas da ascensão do nazismo, as posições pacifistas do físico alemão Albert Einstein geravam rancor entre seus compatriotas. Com o título de 100 Autores contra Einstein, um livro coletivo foi publicado para atacar suas idéias. Einstein respondeu com sua inteligência característica: "Por que 100 autores? Se eu estivesse errado, um só bastaria".

A anedota merece ser lembrada a propósito da recente guerra de abaixo-assinados gerada pela Lei de Cotas e pelo Estatuto da Igualdade Racial - projetos de lei que visam a estabelecer políticas de "ação afirmativa" para favorecer os negros, com cotas raciais nas universidades e no funcionalismo público. Há pouco mais de um mês, um manifesto contrário ao estatuto, assinado por 114 intelectuais, foi entregue ao Congresso. Os movimentos sociais que apóiam as cotas responderam de bate-pronto com outro abaixo-assinado, este com 330 signatários.

Agora, quando a poeira da discussão já começava a assentar (e a votação do estatuto na Câmara dos Deputados ficou para o ano que vem), o diretor executivo de jornalismo da Rede Globo, Ali Kamel, lança um livro fundamental para entender a questão. Não Somos Racistas (Nova Fronteira; 144 páginas; 22 reais) demonstra que as chamadas "ações afirmativas" são uma resposta irracional para um problema fictício - o racismo institucional, que não vigora no Brasil.

O engano fundamental das políticas raciais estaria, de acordo com Kamel, em considerar que a sociedade brasileira é constitutivamente racista. Existe racismo no Brasil, mas ele não é um dado predominante da cultura nacional e não conta com aval de nenhuma instituição pública. Ao exigir, por exemplo, que certidões de nascimento, prontuários médicos e outros documentos oficiais informem a raça de seu portador, o Estatuto da Igualdade Racial está na verdade desprezando uma longa tradição de mistura e convivência em prol de categorias raciais estanques e estúpidas. É, na prática, um exercício de discriminação racial, sancionado pelo Estado.

A miscigenação, dado central da sociedade brasileira, é o fato recalcado pelos defensores das cotas. A lógica beligerante implícita do estatuto e da lei de cotas é de que existem dois grandes grupos no Brasil: os brancos, opressores, e os negros, oprimidos. Isso se revela até no uso das estatísticas do IBGE - e um dos pontos fortes de Não Somos Racistas é a clareza com que o autor (que, além de jornalista, tem formação em ciências sociais) destrinça números para desmontar a falácia das cotas. Nas contas dos que defendem medidas do gênero, os negros são 48% da população, mas representam 66% dos brasileiros pobres. Kamel parte da mesma fonte - a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio, do IBGE - para observar que, na verdade, os negros são uma minoria (veja o quadro). Os filhos da miscigenação, definidos como "pardos", são mais numerosos e têm um lugar ambíguo no discurso racial. Sendo, em geral, descendentes de africanos e de europeus, por que deveriam ser considerados apenas "negros"? Pardos e negros, somados, representam, sim, a maioria dos pobres brasileiros - em números absolutos, 38 milhões. Mas o contingente de brancos pobres também é enorme. Como justificar uma política de avanço "racial" que deixaria para trás a massa de 19 milhões de brancos pobres?

Os mulatos mais claros serão favorecidos ou esquecidos por essas políticas de discriminação? O Estatuto da Igualdade Racial, como se vê, é uma receita para que os cidadãos brasileiros recebam tratamento desigual por parte do Estado.

A pobreza, argumenta Kamel, é a chaga social renitente do Brasil. Ela não discrimina: atinge brancos, negros, mulatos. "Negros e pardos são maioria entre os pobres porque o nosso modelo econômico foi sempre concentrador de renda: quem foi pobre (e os escravos, por definição, não tinham posses) esteve fadado a continuar pobre", observa Kamel. Negros, brancos e pardos, diz o autor, só sairão da pobreza por força de políticas que incluam a todos - especialmente com investimentos consistentes em educação.

Kamel também é muito eficiente ao traçar o histórico das equivocadas políticas raciais debatidas hoje. A idéia de que o Brasil é racista foi, de acordo com o autor, inventada a partir dos anos 1950 por cientistas sociais como Florestan Fernandes - e Fernando Henrique Cardoso. Foi em consonância com as idéias expostas na obra do sociólogo - como Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional - que o presidente Fernando Henrique implementou as primeiras políticas de "ação afirmativa" no funcionalismo público. A distorção que Kamel chama de "nação bicolor" teve início ali, e ganhou uma continuidade "canhestra" no governo Lula. Caberá aos deputados eleitos neste ano dar um ponto final nessa escalada, recusando o Estatuto da Igualdade Racial. Seria salutar que todos eles lessem Não Somos Racistas.

8 Comentários:

Às 7:50 AM , Blogger Eduardo disse...

Prezado Simon,
Quando leio que Kamel se considera alguém "mais perto do povo", uma vez que é jornalista eu só posso rir. Apesar de tudo me parecer bem argumentado, acho que se ele estivesse realmente mais perto do povo - afinal, de que povo ele está falando? - acho que a discussão sobre racismo ficaria mais interessante.
Bem, trocando em miúdos, acho que ele não está perto "do povo". Pelo menos não do povo que eu conheço.
O povo que eu conheço tem vergonha de ser negro - e de quase tudo que remeta a uma estética não-branca.
Em Feira de Santana, cidade vizinha de Salvador, na Bahia, mais precisamente na Universidade Estadual de Feira de Santana, onde leciono, orientei um trabalho de conclusão de curso de uma aluna de pedagogia que acho que vale a pena relatar aqui.
O que a motivou a escrever seu trabalho foi o racismo vivido na carne. Perto do povo, pelo menos mais do que penso que Kamel esteja.
Filha branca (ou suficientemente branca para não ser considerada negra) de mãe negra, sofria quando criança ao ver sua mãe ser tomada, com frequência, como sua babá.
Já adulta, estudante do curso de pedagogia, constatou de maneira aguda o racismo (e o papel que a educação institucionalizada poderia ter no seu combate).
Um dia, quando realizava seu estágio supervisionado, já assumindo a regência de uma turma de ensino fundamental numa escola da periferia de Feira de Santana, numa escola predominantemente negra e pobre, percebeu que o cartaz que vinha no livro didático fornecido pela Secretaria de Educação - era um cartaz com os "ajudantes do dia", você sabe, aquelas crianças que a professora recruta para ajudar com a arrumação da sala - era representado por um desenho de duas crianças loiras.
Ela então resolveu redesenhar o cartaz, resolveu desenhar um menino e uma menina negros - o que ela julgava mais pertinente, uma vez que todos na sua classe eram negros (ou não brancos, se assim preferirem).
A reação das crianças (negras) ao virem o cartaz foi de escárnio: "professora, quem são esses? São o macacos do dia?".
Ela então resolveu fazer seu trabalho tendo como temática o racismo. Pensamos em como seria interessante tentar investigar as representações daquelas crianças acerca do que significa ser branco ou negro. Ela então teve uma idéia brilhante: recortou imagens (fotos) de atores e atrizes, modelos, gente "famosa", todas colhidas desta revistas de "celebridades". Escolhemos em igual número gente famosa branca e gente famosa negra, homens e mulheres "de sucesso".
Ela levou as imagens às crianças e perguntou a elas de modo direto: "quem vocês gostaria de ser, se pudessem escolher?", "quem vocês acham que representa melhor vocês?".
Em duas classes de 20 crianças cada, somente uma escolheu Falcão (cantor negro do Rappa). 40 crianças negras e somente uma se identificava positivamente com alguém parecido com ela. O restante escolhia Giseles Bundchens, Thiagos Lacerdas, Brad Pitts.
Isso é estar perto do povo. E é quanto a isso que eu acho que as cotas podem ser de grande valia.
Ainda escutamos, aqui em Salvador (e em Feira de Santana) as pessoas falarem em "cabelo ruim". Os efeitos do racismo não são abstrações. Eles são reais, concretos. Seus efeitos são incalculáveis e duradouros. Crianças negras muito pequenas se julgam feias e isto não deveria ser considerado uma coisa menor.
E o Kamel se julga "perto do povo". Que povo "cara pálida"?

Eduardo Luedy

 
Às 9:28 AM , Anonymous Alba Zaluar disse...

Tenho evitado entrar nesse debate, mas hoje vou ousar falar de um assunto que é especialidade de outros colegas. O que escreveu o Eduardo é interessante, talvez mais do que ele próprio percebeu ao escrevê-lo. Lembrei da minha infância e vou dar mais um depoimento. Quando criança, em uma escola pública do Rio de Janeiro, com colegas de todas as cores e matizes, todas nós, as mais brancas e as mais pretas queriam ser louras e de olhos azuis, como as estrelas do cinema americano. São os padrões de beleza internacional que estão em questão, não o racismo brasileiro. Só fui superar isto na adolescência, quando o padrão de beleza da mulata ou morena brasileira entrava em cartaz nas relações com os adolescentes e adultos do sexo masculino.

Mais tarde, quando morei na Inglaterra, conheci o racismo discriminador, agressivo, que me classificava não só como alguém inferior, mas também mal-vindo ou rejeitado. A volta ao Brasil significou recuperar a minha auto-estima e o prazer de viver em um país em que, apesar da hierarquia racial, havia mais amplitude no gosto, na estética racial e na aceitação para a convivência. Mesmo assim, ainda sinto até hoje que há uma hierarquia racial mundial que coloca os brasileiros que não descendem de povos nórdicos como inferiores, o que se torna mais forte cada vez que volto aos Estados Unidos e à Europa.

Estou com dados de pesquisa de vitimização na cidade do Rio de Janeiro que apontam para a agressão mais freqüente contra homens e principalmente contra mulheres negras. O que me fez relativizar o racismo foi a constatação de que 60% dos agressores são negros e 35% são brancos. Vou enviar a vocês os gráficos para estimular nossa discussão. Não quero dar publicidade a eles antes de discutir com os colegas as possíveis interpretações.

 
Às 10:38 AM , Blogger Eduardo disse...

"São os padrões de beleza internacional que estão em questão, não o racismo brasileiro".
Prezada prof. Alba Zaluar, mas você não acha que os padrões de beleza podem ter a ver também com racismo? Ora, esta é a feição mais torpe dos efeitos racistas que desqualificam e inferiorizam os "outros".
Permita-me citar um autor que eu gosto muito, o Tomaz Tadeu da Silva: "O racismo é parte de uma economia do afeto e do desejo feita, em grande parte, de sentimentos que podem ser considerados 'irracionais' ... um currículo anti-racista não pode ficar limitado ao fornecimento de informações racionais sobre a 'verdade' do racismo, um currículo anti-racista não pode ignorar a psicologia profunda do racismo" (em Documentos de Identidade, autêntica, 1999, p. 102-103).
São estes efeitos que, no final das contas, me preocupam enquanto educador. Por mais que a gente diga que não há racismo institucionalizado aqui, os efeitos (pelo menos aqui, em Salvador e Feira de Santana - cidades muito negras) são muito evidentes.
Precisamos discutir também estes "padrões", afinal quem os estabelece? A partir de que referenciais? Pra mim tudo isto tem a ver, em última análise, com racismo.
Eduardo

 
Às 11:36 AM , Blogger Leandro disse...

Caro Simon,
Quero aqui falar sobre o comentário de Luisa Schwartzman: Ninguém consegue pensar em mais nada? Não tem meio-termo?
Sim, é possível pensar e executar alternativas a cotas. Aqui na Unicamp temos um programa de ação afirmativa sem cotas que apesar de mostrar resultados excelentes é sempre duramente criticado pelos adeptos de cotas e pelos anti-cotas. Talvez estejamos no caminho certo...
Acontece que cota não é sinônimo de ação afirmativa. No Brasil, por algum motivo que não quero discutir agora, esses dois conceitos viraram sinônimos. Fala-se impunemente das políticas de cotas nas universidades americanas, como se elas não tivessem sido proibidas pela suprema corte há 30 anos por violarem a constituição.
O vestibular da Unicamp há 20 anos mantém aproximadamente a proporção de egressos de escolas públicas entre candidatos e matriculados. Um estudo feito na Comissão de Vestibulares da Unicamp indicou que ter estudado em escola pública era um fator determinante no desempenho acadêmico dos nossos estudantes. Portanto, aumentando a proporção de egressos de escola pública entre os matriculados potencialmente teríamos melhores alunos na universidade. O Conselho Universitário aprovou para o vestibular de 2005 um programa que consistia em adicionar 30 pontos a egressos de escolas públicas e mais 10 pontos aos que, desse grupo, se declarassem pretos, pardos ou indígenas (a média do vestibular é 500 pontos). Acreditamos na auto-declaração. Ninguém vai medir a negritude. Resultados: Desde a implantação do programa, o número de egressos de escolas públicas matriculados aumentou 22%. O número de auto-declarados pretos, pardos ou indígenas aumentou 31%. Um ano após o vestibular, o desempenho acadêmico dos beneficiados pelo programa melhorou em relação à classificação original em 53 dos 55 cursos da Unicamp. O desempenho absoluto dos beneficiados foi superior aos demais em 31 dos 55 cursos. Esses resultados são impressionantres do ponto de vista social e acadêmico. Nosso programa justamente combina mérito acadêmico, inclusão social e autonomia universitária. Esses três conceitos são fundamentais na vida universitária.

Leandro R. Tessler
Coordenador Executivo da Comvest da Unicamp

 
Às 1:35 PM , Blogger Marcelo disse...

Simon, muito obrigado por abrir esse espaço de discussão sobre as cotas. Quero aqui fazer um comentário sobre o que foi colocado sobre o livro do Ali Kamel.

Eu ainda não li o livro “Não Somos Racistas,” mas os trechos colocados no Blog a meu ver não pluralizam e não enriquecem em nada o debate sobre as cotas. Os trechos e comentários sobre o livro simplesmente demonstram um certo desespero com a idéia de uma identidade negra no Brasil. O desespero é tão pungente que ele busca nas idéias da identidade nacional brasileira do início do século passado as justificativas contra as cotas. O autor declara ter se assustado com a idéia das cotas raciais e com os argumentos de racismo no Brasil. Felizmente não há nada de errado em se assutar quando se dá conta de que o Brasil é um país racista. Eu me assustei quando me senti discriminado pela primeira vez. E também não há problema em se rebelar quanto a isso. Entretanto, há um problema muito grande quando se rebelar contra o racismo significa afirmar a sua não existência. O autor e o comentarista parecem negar a existência do racismo e se rebelam contra a possibilidade de qualquer identidade que não seja aquela criada nos anos 30, a identidade nacional brasileira que considera todos os brasileiros miscegenados, tornando-se morenos e convivendo harmoniosamente no paraíso tropical. Este é o país que o autor reconhece como dele—algum lugar no passado—, o que na verdade é muito triste e, também, freudianamente melancólico: o autor vive a dor da perda de um objeto precioso, ou seja, a democracia racial que não vingou.

O Brasil no qual a idéia da miscegenação floresceu enquanto ideologia de criação de uma identidade nacional única, não é o mesmo Brasil de hoje e é aqui que o autor parece cometer um grande equívoco: Pensar em identidade, qualquer que seja, enquanto uma entidade estática, inerte e que não deve acompanhar as mudanças sociais, econômicas, políticas, e culturais. Este é um pensamento simplista, superficial, preguiçoso, obsoleto e extremamente errado sobre identidades.

O sonho de uma democracia racial foi o sonho de muitos, mas o passar dos anos, as mudanças políticas, as mudanças sociais, econômicas, e as mudanças culturais criaram uma enorme distância entre aquela utopia da miscegenação do início do século 20 e a realidade brutal e feroz dos confrontos policiais com as camadas mais pobres bem como as camadas pretas, pardas, mulatas, caboclinhas e cafuzas (termos estimados por Kamel) da sociedade brasileira do início do século 21. O samba que descia dos morros exaltando uma sociedade racialmente mixta hoje se mistura e se confronta com o som do hip-hop que condena as políticas de repressão e exalta uma identidade negra brasileira. Mas infelizmente, o livro parece não encarar tal mudança da sociedade brasileira e a consequente mudança da identidade do preto/pardo/mulato brasileiro como algo bem vindo. Mais do quê isso, o livro parece expressar uma forte rejeição a tal identidade que hoje floresce e se cristaliza tanto através do movimento negro quanto pelos artistas do hip-hop no Brasil.

Infelizmente, repito, tal livro não enriquece em nada o debate de quotas. Tal livro só ridiculariza e desrespeita negros e negras brasileiros(as) que já sofreram discriminação racial quando diz que eles e elas não foram racialmente discriminados—para o autor, racismo no Brasil é uma invenção, um devaneio teórico. O que Kamel faz é deslegitimizar as experiência dos negros e negras. Ironicamente, tal argumento e atitude soa como a voz dominadora que dizia o quê o escravo e a escrava sentiam ou como deveriam se sentir quando tenta dizer como e com o quê os negros brasileiros devem se identificar.

Senhor Kamel, nenhum tipo de racismo é bom. Racismo é maligno, seja este direto ou indireto. Eu tinha algumas reservas sobre as cotas, mas depois de ler tantos argumentos arcaicos e caducos que estão sendo apresentados—sem nunhuma alternativa viável a não ser esperar pela reforma do ensino básico, talvez por mais um século—acabo de fazer a minha cabeça: sou absolutamente a favor das cotas. Obrigado Senhor Kamel por me ajudar nesse dilemma.

O debate sobre as cotas deixa claro que é um pouco difícil haver um meio termo entre contra e a favor. No entanto existe a possibilidade de um meio termo na prática das cotas como deixa claro o comentário do Leandro sobre a experiência da Unicamp.

Marcelo Montes Penha,
Doutorando em Estudos Americanos(New York University)

 
Às 8:16 PM , Anonymous Antonio Orlando disse...

O Marcelo,sintetiza de forma brilhante o "pensamento" do Sr Ali Kamel: ainda estão tentando dizer ao negro no Brasil o que pensar e como agir. Filtrada pela experiência de homem branco brasileiro, a análise da problemática racial, esboçada por Ali, carece da consistência de quem, efetivamente. vive o cotidiano do negro nesse país. Infelizmente o Sr Ali tropeça nas estatisticas e cria uma harmonia racial inexistente.

 
Às 1:06 PM , Blogger Carlos A. Medeiros disse...

Há duas semanas, fomos, minha mulher, Deborah, e eu, a um supermercado em que havia uma banca de jornais na qual também se vendiam livros. E lá vimos, ao lado de títulos como "O importante é ser feliz", "Acredite em seus sonhos", "Nunca diga nunca" e "O importante é ser você", o livro "Não somos racistas", de Ali Kamel. Não pudemos deixar de dar boas risadas. Afinal, Deborah tinha definido essa obra como "um livro de auto-ajuda para brancos racistas", e ali estava a prova da precisão dessa definição.
"Não somos racistas" não traz nenhuma contribuição importante ao debate sobre raça e racismo no Brasil, já que se limita a defender, essencialmente com argumentos de senso comum, as velhas idéias e noções sobre a "excepcionalidade" ou "singularidade" brasileiras. Para isso, como já comentou alguém, faz-se necessário desprezar liminarmente as duras experiências dos próprios negros, os quais, coitadinhos, não saberiam distinguir a discriminação de classe da discriminação racial... Trata-se de uma exibição escancarada de paternalismo e etnocentrismo, já que, para Kamel, se não acontece com ele e com os outros brasileiros de ascendência árabe, não acontece com ninguém.
Disse no início que esse livro não serve para nada. Retifico: serve, sim, porque amplia o interesse sobre o tema, o que é muito bom para nós, que questionamos o establishment, mas talvez não funcione na direção pretendida pelo autor.

Carlos A. Medeiros

 
Às 10:27 AM , Anonymous Anônimo disse...

Prezado Simon


"A pobreza, argumenta Kamel, é a chaga social renitente do Brasil. Ela não discrimina: atinge brancos, negros, mulatos. "Negros e pardos são maioria entre os pobres porque o nosso modelo econômico foi sempre concentrador de renda: quem foi pobre (e os escravos, por definição, não tinham posses) esteve fadado a continuar pobre", observa Kamel. Negros, brancos e pardos, diz o autor, só sairão da pobreza por força de políticas que incluam a todos - especialmente com investimentos consistentes em educação."

Só nesse parágrafo podemos notar inúmeras contradições. Se a pobreza atinge a todos, por que os negros são as maiores vitimas dela? Argumentar, como faz Kamel, que a culpa é da concentração de renda é reconhecer que o Brasil não explica, em hipótese alguma, o por quê de, ao longo da história ddessa Terra Brasilis, a percentagem de brancos pobres que têm/tiveram mobilidade social e economica é maior do que a de negros. Ademais, se os negros, foram, durante mais de 3 séculos, prejudicados pela escravidão e, sobretudo, tratados como desiguais, ou seja, ficaram alijados até da própria liberdade e do direito de ir e vir isso sem contar a ausência de salário e educação - o que os jogou na completa indigência - não seriam, hoje em dia /aqui e agora merecedores de ações compensadoras e reparativas via cotas e coisas afins.

Posto que, em função dessa excessão - serviços forçados - é que os negros ainda estão na base da pirâmide social e economica.

Ou seja, por que na hora de dividir o bolo/riquezas somos todos iguais? Não deveriam os negros - agora - serem compensados por, durante séculos, terem contribuido, com muito esforço e suor e - sem paga - para o crescimento desse país. Isto é, não deveríamos sermos tratados como "desiguais" e recebermos mais?

A argumentaçãodo Kamelé capenga e, acima de tudo, nada explica.

Antonio Orlando Alves da Silva

 

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