31 agosto 2007

Bolsa família para jovens de 15 a 17 anos: vai funcionar?

Em 2004 fiz uma análise dos dados da PNAD/IBGE dos beneficiados com programas de bolsa escola, e mostrei que havia um erro grave de focalização: a bolsa era para famílias com crianças até 15 anos, mas a deserção escolar só ocorria, de forma mais significativa, a partir dos 15 anos de idade. Outros estudos mostraram a mesma coisa, e agora, finalmente, o governo resolveu ampliar a bolsa para famílias com jovens de 15 a 17 anos. Será que vai resolver?

A tabela abaixo, extraída da PNAD 2005, mostra que, dos 3.1 milhões de jovens de 15 a 17 anos em famílias de renda familiar per capita inferior a 120 reais por mês, que é o critério do programa, 75% estuda, e não precisa da bolsa. Dos que não estudam, 42% trabalham e ganham em média 75 reais por mês, que é aproximadamente o que sua familia receberia se já não estivesse recebendo a bolsa por causa de filhos menores (60 reais para a familia e mais 15 por estudante, até 3 por familia). Existem 105 mil que estão buscando trabalho, e outros 359 mil que não trabalham nem estudam.


Ocorre que 25% destes jovens fazem parte de familias de 4 ou mais filhos, e por isto já recebem pelo teto do programa, e mais 50% estão em famílias de 2 e 3 filhos, e poderiam receber no máximo um adicional de 15 reais. Sobram um quarto, ou 200 mil jovens que não estudam e cujas familias poderiam receber o auxilio de 75 reais. Outras 595 mil familias poderiam também receber, cujos filhos já estão na escola de qualquer maneira.

Trazer de volta à escola 200 mil jovens seria importante, mas a grande dúvida é se eles realmente estão fora da escola por falta de dinheiro. Os dados mostram que só metade deste grupo de 800 mil jovens de familias pobres trabalha ou busca trabalho; por outro lado, existem 732 mil jovens de renda semelhante que trabalham e nem por isto deixam de estudar. Existem fortes razões para acreditar que os que abandonam a escola o fazem por que não conseguem aprender e acompanhar os cursos, dada a forte e conhecida relação entre nível socioeconomico, educação das famílias, e desempenho escolar dos filhos.

O reconhecimento, embora tardio, que o grupo alvo da política de reter os jovens na escola deve ser o da faixa de 15 a 17 anos é importante; mas o remédio, claramente, não é a bolsa familia, e sim o caminho mais difícil e trabalhoso de melhorar a qualidade das escolas públicas e torná-las atrativas e proveitosas para os jovens que as freqüentam.

1 Comentários:

Às 11:36 AM , Blogger Blog do Ricardo disse...

Pois bem , Simon, até hoje me recordo do senhor dando a aula inaugural de meu curso e apontando estes dados com os indicadores para o futuro das bolsas de programas sociais brasileiros, isso há um ano e meio.
Creio que esta bolsa que está sendo destinada para os jovens possa ser a melhor bolsa de todos os tempos para este país. Mas é óbvio que ele não resolverá todos os problemas, afinal, como bem apontado pelo senhor, precisaremos de uma escola pública de qualidade, universal e eficiente para que todos os jovens possam ter melhores condições de vida, sociais e etc...
Mas o ponto é que avançamos muito com os atuais governos democráticos, excepcionalmente de FHC e Lula. É tão bom verificar em meu país que aquilo que leio na faculdade sobre as teorias da democracia, como Amartya Sen, são verdadeiras e não são somente teses e que o rumo da humanidade é sim uma democracia que dá justiça e igualdade, além da liberdade - crucial para os seres humanos.
Fico muito feliz do rumo que estamos traçando em todas as áreas, em especial a área da educação, sou apaixonado por ela.

http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/ult508u323484.shtml

Este link trás um textinho do Gilberto Dimenstein, muito interessante. Vale a pena conferir.

Abraços.

 

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