16 setembro 2007

O Napoleãozinho de Campinas

O Mandarim - História da Infância da Unicamp, do jornalista Eustáquio Gomes, publicado em 2006 pela própria Universidade, é sobretudo a história dos mandos e desmandos de seu fundador, Zeferino Vaz, que havia sido antes interventor na Universidade de Brasília e, antes ainda, fundador da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto. O livro é bem escrito, baseado em depoimentos e documentos internos da Universidade, e um excelente exemplo do que pode e não pode fazer um ditador. Entre 1966 e 1978, Zeferino Vaz fez o que quis na UNICAMP, navegando nas águas turvas da ditadura militar, exibindo quando necessário suas credenciais de anti-comunista militante, defendendo e até tirando da cadeia ¨seus comunistas¨, e manobrando todo o tempo para tirar do caminho as pessoas que questionavam seu poder.

Zeferino tinha uma qualidade, que era haver entendido desde cedo que ¨instituições científicas, universitárias ou isoladas, constroem-se com cérebros e não com edifícios¨. Curiosamente, o livro não diz nada sobre o que Zeferino Vaz fez em sua própria área, de medicina e zoologia. Nas outras áreas, que não conhecia diretamente, buscou nomes de grande prestígio e reputação, trazendo para Campinas e dando total apoio a alguns cientistas brilhantes que haviam feito seu nome no exterior, especialmente Sérgio Porto, Rogério Cerqueira Leite, que criaram a nova área de física do estado sólido, e a grande estrela que era César Lattes, que permaneceu isolado. Na área das ciências sociais e humanas, começou, não se sabe por quê, entregando-a um obscuro professor de filosofia fenomenológica, que foi um desastre; em economia, optou por fazer da universidade a continuadora da tradição da CEPAL, então na moda na América Latina; e descobriu depois que, com o fim da ditadura que já se pressentia, era dos sociólogos marxistas que precisava, desde que não fizessem política nem se confrontassem com ele. Em 1975, promoveu um grande seminário internacional estrelado pelo historiador marxista Eric Hobsbaum que deu à universidade da ditadura uma áurea de centro avançado de pensamento de esquerda, preparada para os anos que viriam.

Comparada com a criação da USP trinta anos antes, que foi buscar nos centros universitários europeus os melhores talentos, chama a atenção o provincianismo do projeto da Unicamp, aonde o único estrangeiro de renome, que estava lá por acaso, era o geneticista Gustav Brieger, que cedo se indispôs com Zeferino e acabou se afastando. Zeferino entendia que sem cérebros não se constrói uma universidade, mas nunca entendeu ou aceitou que estes cérebros formam comunidades de pessoas ativas e pensantes, sem cuja participação as instituições não têm como crescer e fortalecer. O livro é rico de documentos que mostram as brigas por poder na Universidade, mas nada que mostre a existência de deliberações e consultas sobre programas, prioridades, e política de recursos humanos.

O livro também vale pelas fofocas que revelam o estilo e o caráter de muitos personagens que ainda estão entre nós – mas isto fica para o juízo pessoal de cada um.

3 Comentários:

Às 10:01 PM , Blogger Fernando disse...

Se o Napoleaozinho foi bem sucedido em outras areas, em economia ele fracassou redondamente. As bobagens e barbaridades economicas oriundas de Campinas formaram a base teorica do famigerado "plano" do Presidente Collor, que congelou ilegalmente os depositos de milhoes de brasileiros e levou a uma contracao do PIB da ordem de 4% em 1990.

 
Às 11:36 AM , Anonymous Carina disse...

Olá!!

Muito bom os textos.....


Abraços de sua quem sabe prima de Campinas,

Carina Schwartzman

 
Às 11:10 AM , Blogger RenatoSabbatini disse...

No que pesem os tropeços e dificuldades iniciais na criação da UNICAMP, Zeferino Vaz foi um visionário e um inovador, e conseguiu o seu lugar na história. O resultado é o que interessa. Hoje, a UNICAMP é, conceitualmente e praticamente, a universidade mais avançada do país, com 500 patentes registradas, com o maior número de cursos de graduação e pós-graduação com nota máxima, e uma das duas únicas instituições superiores brasileiras que figuram no ranking das melhores do mundo. Estudei na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, outra criação genial de Zeferino, e tive muitos professores estrangeiros, mas isso foi necessário porque em 1952 não existiam quadros de qualidade no Brasil, orientados para a pesquisa científica. Quando a Unicamp foi criada, Zeferino viu que isso não era mais necessário, e valorizou os pesquisadores nacionais, no que estava certíssimo. Repito: é só ver os resultados, não a trajetória.

Renato M.E. Sabbatini
Professor aposentado da UNICAMP
Ex-professor da USP
www.sabbatini.com/renato/blog

 

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