24 junho 2008

João Batista Araujo e Oliveira: Ainda o IDEB

Como são raras oportunidades para um debate sério, cumpre aprofundar e avançar a partir das observações sempre pertinentes da Secretária Maria Helena Guimarães, motivados pela divulgação dos resultados do IDEB. Em sua nota, a Secretária chama a atenção para escolas e municípios que vêm melhorando e indica algumas das constantes que caracterizam as escolas desses municípios. Gostaria de aprofundar dois aspectos:

Primeiro, o que Secretarias de Educação podem fazer para que as escolas melhores? Em setembro de 2008 o Instituto Alfa e Beto promoveu um encontro sobre Reformas Educativas: o que diz a evidência internacional (para mais informações consulte o site www.alfaebeto.com.br). A experiência internacional mostra que os fatores que tornam as escolas bem sucedidas são os mesmos que tornam os países bem sucedidos: em outras palavras, nesses países, os governos ajustam suas políticas e práticas de ensino para que todas as escolas tenham condição de dar certo. No Brasil, na maioria das vezes, as escolas que dão certo são exceção, o que sugere que as regras que as Secretarias criam precisam mudar. A grande diferença de dados entre municípios de uma mesma rede, ou entre escolas de um mesmo município, são testemunhos da falta de políticas consistentes das Secretarias – e que são a condição necessária, embora não suficiente – para que as escolas possam ter sucesso.

O segundo aspecto refere-se à importância de praticar educação com base em evidências. Para isso é essencial, como diz a Secretária Maria Helena, promover pesquisas. Mas mais importante do que isso, é importante usar as evidências já disponíveis, e usar pesquisas para avaliar se estamos atingindo os objetivos ou para descobrir novas formas de conseguir melhores resultados. No Brasil insistimos em reinventar a roda como se os fatores necessários para melhorar a educação fossem desconhecidos. Freqüentemente , como bem aponta a Secretária, basta organizar algumas rotinas básicas para ver resultados. Mas freqüentemente é preciso ir além do óbvio e do trivial, consultar as evidências e implementar reformas. No Brasil, por exemplo, os governos e universidades resistem às evidências sobre a importância de usar métodos adequados para alfabetizar as crianças. Ou seja: selecionamos as “evidências” de que gostamos e desprezamos as que não convém.

Que lições as Secretarias de Educação precisam tirar do IDEB? No Brasil, desde o Colégio Pedro II, sabemos como fazer UMA escola de elite – seja ela localizada na capital ou na favela mais complicada. A educação não pode depender apenas dos bons ofícios de um diretor – da mesma forma que uma empresa de aviação não pode depender de pilotos corajosos. O que ainda não aprendemos a fazer é montar uma rede de escolas que funciona como sistema a nível estadual ou municipal. Premiar e promover escolas de bom desempenho é fundamental. Mas a função principal das Secretarias de Educação é criar as condições para que todas as escolas possam oferecer ensino de qualidade. E, para isso, é necessário fazer uma revolução profunda na substância e na forma de agir de nossas Secretarias de Educação. E superar a duplicidade de redes públicas de ensino num mesmo município.

2 Comentários:

Às 11:17 AM , Blogger laleto disse...

Dado que la columna de Simon también se lee en América Latina, aprovecho este espacio para practicar mi lengua materna. Estoy de acuerdo con Claudio; es fundamental incorporar decidida y prioritariamente la dimensión propuesta por Claudio. Seguimos sin políticas públicas que permitan enfrentar una de las importantes causas del fracaso de la escuela: las violencias en su interior. Hay suficientes evidencias que permitirían iniciar rapidamente programas de convivencia escolar que transformen las escuelas en espacios acogedores.
Jorge Werthein

 
Às 6:19 AM , Anonymous Yvonne Maggie disse...

Quero dizer que esse debate no blog sobre os resultados do IDEB estão muito interessantes e espero que a gente consiga ampliá-lo.

Eu tenho feito um esforço na minha pesquisa de seguir o cotidiano de algumas escolas da rede estadual e agora algumas da rede municipal do Rio de Janeiro, fazendo um estudo mais intensivo, qualitativo, há quatro anos.

A grande diferença que vejo deste resultado para o de dois anos atrás é o impacto que está tendo nas escolas. Mesmo com toda a resistência à avaliação por parte dos professores, posso dizer que os professores das escolas que pesquiso estão mais conscientes hoje e conhecendo um pouco mais o sistema de avaliação. Acho esse um passo fundamental para que as escolas utilizem os resultados da avaliação para melhorar o seu desempenho.

Nesse sentido e concordando com a Maria Helena posso dizer que vi mudanças significativas na concepção que os professores e diretores estão tendo da avaliação embora essa mudança ainda não tenha significado uma busca de novos caminhos para consertar os erros. É preciso aproveitar esse momento e quem sabe fazer um esforço além para que essas escolas consigam tomar iniciativas no sentido de mudança de rumo.

Esse deveria ser o debate a ser travado no Brasil, não é mesmo? Enquanto isso estamos discutindo cotas para o ensino superior. Me sinto assim como se os brasileiros estivessem num surto e para não enfrentar o problema resolve-se discutir uma questão que diz respeito às elites, como o acesso ao ensino superior. Isso tudo me parece estranho porque fica evidente que temos que discutir a escola em que estudam os brasileiros. Como diz o João Batista, sabemos mais ou menos como fazer uma escola para a elite, mas ainda não aprendemos o que fazer para transformar as escolas em boas escolas para todos os brasileiros.

Olhando os rituais cotidianos dessas escolas que pesquiso posso dizer que não consigo ver nenhuma receita fácil. Tudo me parece muito difícil. Só uma coisa ficou evidente. As escolas estão muito sós diante da enormidade do trabalho que têm diante de si, pelo menos aqui no Rio e seguem as milhares de receitas que lhes são impostas pelo secretário de ocasião de uma forma burocrática, para cumprir o seu dever e sem nenhum laivo de independência.

 

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