05 junho 2008

Roque Callage Neto: Obama e o nível de adesão a uma nova estratégia dos EUA

O colega Simon Schwartzman exaltou em correspondência o comportamento e discurso de Barack Obama em seu anuncio de sagração de candidatura à presidência pelo Partido Democrata, considerando-o "comovente".Exalta Simon principalmente a ênfase à retomada de visão moral dos Estados Unidos, incluindo saída do Iraque, prioridade à pesquisa de energias não poluentes, internamente o seguro médico a toda a população, cuidado às crianças e à educação extensiva a todos, e crítica aos que usam nacionalismo e religião para assustar a população nos anos Bush. Simon observa Obama como um herdeiro da tradição de Roosevelt e Kennedy, suficientemente abrangente para incluir homenagens a Clinton e Hillary, a mulher que chegou a mais alta disputa na vida pública americana. Homenageou sua avó africana, apresentando-se como um candidato que queria representar todo o país e outros paises também.

Creio que Simon se sentiu justamente impactado pelo discurso enaltecedor, mas gostaria de apresentar argumento cauteloso entre o discurso ideativo e o longo caminho que toca a Obama, inclusive prevendo-o como político já consciente sobre a implementação diferenciada do próprio discurso. Há uma nova coalizão em andamento nos Estados Unidos e ele parece ter noção disto, mas uma consciência ainda não bem definida sobre seus significados precisos e aplicados, cometendo seguidamente zigue-zagues conceituais - como que em busca de elementos doutrinários.

É possível verificar que Obama está reunindo com suas propostas, e pela situação econômica-política, o pessoal de Reagan,Carter, Kennedy, e difusamente, visando alterar o keynesianismo militar de companhias de armamentos em Washington, montado desde Reagan, mas principalmente tornado um sistema de Estado por Bush. Também o histórico sistema de lobbies do welfare corporativo construído pelo Partido Democrata e capturado por Clinton e sua madame com sindicatos e companhias fornecedoras diversas, tradicionais clientes do Estado desde a era Roosevelt.Pretende modificar este tipo de gestão rumo a outro tipo de proposta na direção de comunidades de mudança (como tão bem desenhava Peter Drucker) descentralizadas e multiculturais. Os EUA estão indo céleres na mesma linha do Canadá, alterando sua composição multiétnica, para desgosto de Samuel Huntington, o inteligente conservador democrata que ainda quer o país como white anglo saxon protestant.

A gigantesca dívida gerada por Bush e a concentração de renda foram dois fenômenos gêmeos da manutenção do unilateralismo da linhagem anglo-saxão protestante que justamente cabe agora desmontar, desmontando também a concentração lobbista em Washington, ao mesmo tempo em que externamente, projetar outra política de alianças.

Ao mesmo tempo em que Obama fala em rever o Nafta e ser novamente protecionista com a industria, agradando empresas médias internas e sindicatos, e abandonar o protecionismo agrícola, tem que cortejar todo o setor primário senão perde votos no heartland republicano.

Na politica externa,tem a carta na manga de uma nova aliança planetária com países em desenvolvimento o que quebraria definitivamente o conceito de terceiro mundo e a aliança dos BRICS/ China, sendo também alternativa à Europa na competição global (que é o que supostamente e de forma coerente fará para maximizar oportunidades norte-americanas). Mas não pode falar nisto para não perder votos internos do orgulho republicano de superpotência unilateral - que não precisa de ninguém e não presta contas a ninguém, muito menos alianças heterodoxas com países menores.É neste contexto que se insere o chamado "novo diálogo".

Se Obama tiver estratégia multidimensional e inteligente dentro do jogo do Partido Democrata, pode apoiar a recandidatura de Hillary ao Senado e não a vice-presidente, escolhendo-a (já que ela tem expertise) como super encarregada para assuntos da América Ibérica e do Hemisfério Americano dentro do Governo, quebrando a barreira de "muro de Berlim" que a América do Sul está montando contra os EUA - e negociando uma aliança americana funcional de novo tipo.

Em vista destas questões sobre cálculos estratégicos, os motivos para uma adesão comovida a projetos dos Estados Unidos permanecem cautelosos – pois com a grande exceção de Wilson nos anos 1920, e do diálogo pan-americano entre Franklin Roosevelt e Oswaldo Aranha de 1942 a 1944, que previa ajuda sem restrições a uma América visionária, solidariedade realmente continental, e um mundo reconstruído, que Truman mediocrizou – os norte-americanos usualmente se detém demais em negociações de alcance limitado a interesse próprio imediato. Por enquanto, Obama e Hillary não parecem dispostos nem a negociar entre eles com este tipo de proposição "ganha-ganha" de longo alcance.

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